sábado, 5 de novembro de 2016

Músicas Atemporais

Sempre fui curiosa, às vezes quando percebia algo incrível (do meu ponto de vista, lógico, nem sempre pode-se parecer tão interessante a olhares alheios) me tornava obcecada, era quando despendia qualquer oportunidade para pesquisar e me aprofundar o máximo. Para mim, boas leituras fazem referências à bagagem cultural do autor(a), quando percebia marcava essas remissões para depois apreciar.

Pedro Bandeira foi uma das minhas primeiras leituras por prazer, no início da adolescência e longe do colégio, desde então o carrego com um afeto nas lembranças e ainda gosto muito de ler suas histórias. Foi justamente durante a leitura de Amor impossível, possível amor que tive a oportunidade de  abrir um leque até então desconhecido sobre a música brasileira, pois a história citava uma linda música que dava nome à vila da protagonista e entremeava o enredo.

A música chama chão de estrelas e é uma verdadeira poesia, ouvi pela primeira vez na voz de Nelson Gonçalves (depois na de Bethânia), gostei da música, da letra, da voz, procurei por outras canções do cantor e me emocionei muito com naquela mesa, também.

Foi por ela que quando vi uma revistinha, na banca-sebo pela qual costumo passar e onde compro muitos dos meus livros, com letras de músicas que um dia foram muito populares, agarrei-a imediatamente, ávida e contente.


Chão de Estrelas
Canção de Sílvio Caldas e Orestes Barbosa
Cantor: Silvio Caldas - ODEON 1937

Minha vida era um palco iluminado,
Eu vivia vestido de dourado,
Palhaço das perdidas ilusões...
Cheio dos guizos falsos da alegria,
Andei cantando a minha fantasia,
Entre as palmas febris dos corações...

Meu barracão, no morro do Salgueiro,
Tinha o cantar alegre de um viveiro,
Foste a sonoridade que acabou...
E, hoje, quando do sol, a claridade
Forra o meu barracão, sinto saudade
Da mulher pomba-rola que voou...

Nossas roupas comuns, dependuradas,
Na corda, qual bandeiras agitadas,
Pareciam um estranho festival...
Festa dos nossos trapos, coloridos,
A mostrar que nos morros,
mal-vestidos,
É sempre feriado nacional...

A porta do barraco era sem trinco
Mas a lua, furando o nosso zinco,
Salpicava de estrelas nosso chão...
Tu pisavas nos astros, distraída,
Sem saber que a ventura desta vida
É a cabrocha, o luar e o violão.

A ideia de fazer este post veio de uma outra música: luar do sertão, mencionada em minha atual leitura - o livro de memórias Um chapéu para a viagem da Zélia Gattai - ouvi pela voz de Bethânia e me apaixonei...

Poesias que merecem ser conhecidas e revisitadas, provando que boa música - assim como a literatura - não são datadas, preservam a mensagem capaz de atingir o espírito, não importando o tempo.

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